Segunda-feira, 24 de Março de 2008
Palácio dos Arcos: que futuro?

Tomei conhecimento desta "novidade", no blog "Oeiras Local", que reproduzia uma notícia do jornal "Público" ("Câmara quer hotel em palácio doado para casa-museu"), de 15 do corrente.

Desde então, naquele blog, o Palácio e Paço de Arcos têm sido tema quase constante de debate em torno da defesa do Património... diria mesmo, deste Património único que é ex-libris da nossa Freguesia!

Inclusive, esta notícia que aqui reproduzo, já foi publicada no "Jornal da Região - Oeiras", da semana de 18 a 24 de Março, e igualmente tema de discussão no "Oeiras Local"...

Tentarei colocá-la hoje aos leitores, de uma forma mais directa e contundente. Começando, desde logo, por titular este post com a pergunta: "Palácio dos Arcos: que futuro?".

 

 

Sendo eu um homem 20 anos ligado ao Turismo (através do Jornalismo), não me chocaria de todo este título. Mas... há sempre um mas nestas coisas! E, no caso em apreço, há mais do que um... há muitos "mas"!

Segundo este jornal, a CMO abriu um concurso para a "atribuição do direito de exploração do Palácio dos Arcos e respectivos jardins, mediante a constituição de um direito de superfície sobre o edifício, de forma a ser construída, a expensas do superficiário, uma unidade hoteleira."

Lendo nas entrelinhas, o que é que se depreende?

"Direito de superfície sobre o edifício", levaria a presumir que o dito "Hotel de Charme" seria no próprio Palácio!? Mas, não! Então, porquê o "direito de superfície sobre o edifício", pergunto eu, leigo em matéria legislativa?

De acordo com o proponente - o vereador do PS, Carlos Oliveira -, "como a degradação do imóvel é evidente" (vê-se pela foto e muito melhor no local...), "evitamos gastar dinheiros públicos, preservamos o edifício e criamos emprego".

Nada de mais nobre e correcto. Mas...

"Não nos podemos esquecer que, para além da requalificação, o palácio teria custos elevadíssimos para a sua manutenção", adianta Carlos Oliveira. Certo, também!

Mas também não podemos esquecer que, segundo o seu derradeiro proprietário, o Conde de Arrochella e de Castelo de Paiva, o legado à CMO "obrigava" a um destino único: uma Casa-Museu!

Esta concessão, que esteve para ser por 99 anos, acabou por "restringir-se" apenas a 50 anos, não sendo condição essencial "apenas o valor da renda, mas sim a intervenção e a qualidade do edifício".

Deixem-me ver se entendi? Intervenção, onde? No Palácio, presumo... Qualidade do edifício, qual? O tal "Hotel de Charme"? Creio que não, a fazer fé nas declarações do sr. vereador: "o edifício tem que manter a traça"... Ora, aí está! Edifício = a Palácio! Aqui, estou perfeitamente de acordo.

Mas diz mais, o vereador Carlos Oliveira: ... "e o hotel não poderá ter mais de 60 a 70 quartos. A haver construção (a haver???) para além da requalificação do palácio (afinal, é ou não é "o" edifício?), terão que a fazer na parte traseira, junto à linha de comboio, que é uma zona de menor impacto em termos ambientais". E patrimoniais, não conta?

Bom... temos aqui outros "mas"...

Para quem não conhece os Jardins do Palácio dos Arcos, recuperados e abertos ao público em 29 de Agosto de 2003, durante as Festas em honra do Senhor Jesus dos Navegantes, reproduzo estas imagens do desdobrável então publicado pela CMO (DPE-DAE-DIM-DPGU) e deixo-vos dois novos "mas":

 

   

(Clicar nas imagens, para as ampliar)

Tanto quanto posso perceber, o único local passível de construção, será o assinalado a encarnado! Certo?

Outro "mas"...

Caros leitores e, em especial, Fregueses de Paço de Arcos: conseguem "ver" um Hotel com 60 ou 70 quartos, neste espaço? Eu, não...!

Para melhor entendimento do espaço, reproduzo também imagem do Sistema Hidráulico recuperado (e bem) pela CMO, e que serve todo o Jardim (assinalado a azul nas imagens acima):

  (Clicar, para ampliar)

Sigamos para outros "mas"...

Segundo escreveu Teresa Zambujo (à altura, presidente da Câmara) no citado desdobrável, "Algumas áreas de intervenção encontram-se já em implementação, como é o caso do restauro do mobiliário, com a participação do Instituto Português de Conservação e Restauro, ou da inventariação para posterior recuperação e exposição das publicações existentes no espólio literário do palácio", levando-me a concluir que, tudo isto mais os quadros ali existentes, daria lugar à tal Casa-Museu. E agora, onde estão?

A própria Adega, foi minimamente recuperada e chegou a ser palco de exposições, tal como a Capela onde decorreram alguns concertos. Como estarão agora?

E o Protocolo assinado com a Fundação Paço d'Arcos (a que fui convidado a assistir), em que ficou? É letra-morta?

Claro que sei que a Edilidade "adquiriu à família (do Conde de Arrochella) o usufruto do palácio. Pagou 90 mil contos para isso, com a condição de poder dar ao palácio o destino que entender (?). Não há nenhuma ilegalidade", garantiu ao "Jornal da Região - Oeiras" o presidente da CMO, Isaltino Morais.

Reparem que, até agora, ninguém falou em qualquer ilegalidade!

Até porque é o próprio Edil que, referindo-se ao espólio, garantiu estar devidamente catalogado, acrescentando que "há mobílias, loiças da Companhia das Índias, livros, entre outros objectos que, possivelmente, até podem ficar num espaço museológico a construir no hotel".

Expliquem-me, por favor: deixou-se de falar em Casa-Museu para passar a falar-se em "espaço museológico"... no próprio hotel? Então, para que "servirá" o Palácio?

 

Antes de terminar, permitam-me divagar um pouco pelo âmbito político-partidário. Admito que é aborrecido para muitos, mas eu já explico.

Quando Teresa Zambujo presidia aos destinos do Município, chegou a aventar-se a possibilidade de criação de um "Hotel de Charme"... no próprio Palácio ou, em alternativa, até numa Casa de Chá de alta qualidade (quiçá, a exemplo do que foi a antiga Pensão Moreira). Isso, valeu-lhe ser quase "linchada na praça pública", especialmente por parte da Bancada do PS (com destaque para o seu então líder, Carlos André, que me queria "linchar" também) na Assembleia de Freguesia de Paço de Arcos.

E é agora um Vereador do mesmo PS a propor a construção de um "Hotel de Charme", com 60 ou 70 quartos, "na parte traseira (do Jardim do Palácio), junto à linha de comboio"?

Há aqui qualquer coisa que me escapa...

Ou o PS/Oeiras "endoidou" de vez (deslumbrado com o "poder" que lhe deu o IOMAF), ou o PS/Paço de Arcos ainda tem uma palavra a dizer (será?) ou, então, o título deste post representa mesmo a pergunta crucial: "Palácio dos Arcos: que futuro?"

Espero para ver e ouvir...



Publicado por rui.freitas às 23:58
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10 comentários:
De José António a 25 de Março de 2008 às 12:10
.

Caro Amigo Rui,

Parabéns !
Excelente post.

Políticas à parte sou da opinião que o disposto no testamento deve ser respeitado - nem que seja apenas por respeito ao falecido -, na medida em que eu veria com bons olhos uma Casa-Museu, eventualmente com espaço para exposições e concertos, em Paço de Arcos. Seria uma enorme mais-valia Cultural e Turística. Pense-se p.ex. nos estudantes e nos investigadores.

Perdendo aquele importantíssimo edifício quinhentista e o seu aprazível jardim para a hotelaria, o que sobra ?!

Abraço

.


De rui.freitas a 26 de Março de 2008 às 00:09
Amigo Zé António,
Acredites ou não, a tua opinião é importante para mim. Obrigado!
Quanto ao testamento, eu iria mais longe: o que está escrito, é para ser cumprido!
Confesso que a opção Casa-de-Chá, virada para o Jardim, não seria má opção... Desde que o interior do Palácio fosse recuperado, preservado e dedicado à Cultura. Aliás, em Paço de Arcos não existe um espaço condigno para tal; excepção feita ao Salão Nobre do CDPA (a precisar de urgentes obras) e ao Centro Cultural do Bugio (Sala Elisiário Carvalho), recuperado no meu mandato com a compreensão do então vereador Jorge Barreto Xavier e o empenhamento da Associação dos Artistas Plásticos de Paço de Arcos - "Paço de Artes", que conto entre os bons Amigos. O esforço foi deles, e é justo que o refira aqui!
Quanto ao Centro Cultural José de Castro, já ouço falar há tantos anos... que já não acredito.


De Isabel Magalhães a 25 de Março de 2008 às 12:50
Viva , Rui;

Ontem à noite estive cá e ainda li todo o artigo mas já não deu para comentar. Hoje comecei pelo O.L. onde deixei um comentário ao seu artigo acima citado e que vou reproduzir aqui.

Uma Bjoka.

I.

É meritória a sua ideia de alargar o assunto ao 'Pinhanços', outro blog, outros leitores, outras abordagens, mais divulgação, mais pessoas interessadas em que não se perca um tal património. E, embora a CMO tenha já decidido lançar um concurso para a construção de uma unidade hoteleira pode até ser que apareça um mecenas que lá queira alojar a colecção salvaguardando também o espólio do Palácio dos Arcos.´

Sei que Portugal é um país pobre onde até os ricos são uns 'pobres' ricos mas o mecenato não se extingue com a Fundação Manuel de Brito que recuperou o Palácio Anjos, em Algés, nem com o 'mecenato' que o governo deu a Joe Berardo proporcionando-lhe excelentes condições para alojar a colecção nesse magnífico espaço do CCB. Aliás, o estado, de vez em quando, é um bom 'mecenas', não esqueçamos a Fundação Oriente...

Depois parece que também há um Ministério da Cultura e um IPPAR embora o Palácio dos Arcos tenha sido doado à câmara de Oeiras (sob certas condições...)


De rui.freitas a 26 de Março de 2008 às 00:21
Amiga Isabel,
Sei que entendeu este "afastamento" em relação ao "OL"... dado ter alguma carga política que não quero associar ao "Oeiras Local"! Foi isso e apenas isso que me levou a "postar" aqui esta opinião.
Se o meu conterrâneo Berardo se dignasse "olhar" para o Palácio dos Arcos, até nem me importaria. Desde que as contrapartidas não fossem iguais às do CCB... dadas por Sócrates & C.ª.!
há uma coisa em que discordamos... e a Isabel foi uma Mulher do Turismo: Portugal, NÃO É UM PAÍS POBRE. Se calhar, até somos mais ricos do que muitos outros países!
Vejamos Espanha, Isabel: conhece algum "Monastério" que não esteja profusamente iluminado e devidamente identificado? Ainda que seja apenas um amontoado de pedras?
Conhece algum Mercado (ou "Mercadillo") que não promova continuados concursos, oferecendo automóveis, etc., etc., etc., promovendo assim o Comércio Tradicional?
Conhece algum monumento - por menos imponente que seja - que não esteja devidamente identificado em, pelo menos, três línguas: espanhol, inglês e francês?
A NOSSO POBREZA é essa. Não valorizamos o que é nosso. Pura e simplesmente! E, depois, queixamo-nos! É mais fácil...
Ministério da Cultura? IPPAR? O que é isso?


De IM a 26 de Março de 2008 às 12:03
Bom dia, Rui;

A pobreza a que me referi era mesmo a pobreza 'per capita'...

Temos como diz uma enorme riqueza em Património mas não temos (não temos tido) quem se interesse e lhe dê a devida atenção e cuidado.

Veja o caso do 'Teatro Romano de Lisboa' e do 'Santuário de Nª Senhora do Cabo Espichel'.

E quem é que avalia esses que são pagos para preservar e cuidar?

Deixo a pergunta.

Um []

I.


De rui.freitas a 27 de Março de 2008 às 02:10
Esqueceu duas coisas, Isabel:
1.ª - Sobre avaliação, e pelo que temos visto, só os Funcionários Públicos e Professores são disso "merecedores"...
2.ª - Quanto a Património, além dos casos que citou e de muitos outros que vão caindo sem apelo nem agravo, relembro o "feroz" ataque que tem sofrido o nosso Património Gastronómico, as tradicionais Festas, Feiras e Romarias... Ou não serão também Património para esses senhores?


De Pedro Taveira Leite Pereira a 26 de Março de 2008 às 18:22
Meu Caro Rui Freitas
O nosso comum amigo Silvino Valente disse-me mesmo agora para ver o seu blog sobre a SCMO. Verifico com satisfação que você continua a ser um HOMEM integro o que me agrada nos meus amigos. É inconcebível o que se está a passar na Misericórdia, Instituição que eu servi durante 16 ou 17 anos. A Dr.ª Eduardo merece ganhar e acabarem com o assalto do Sr. Morais ou Isaltino à Instituição
De Guimarães onde vivo desde 2006 lhe envio um granded abraço.
Tenho pena de não me ter despedido de alguns amigos mas vim para o norte de repente doente e não voltei a Oeiras . O Silvino sabe o que se passou. Apesar de tudo continuo Irmão da SCMO


De rui.freitas a 27 de Março de 2008 às 02:00
Amigo Leite Pereira,
Acima de tudo, garanto que foi com muita satisfação que soube novas sobre a sua pessoa e, sinceramente, espero que qualquer problema de saúde tenha sido superado. Deixo-lhe um forte abraço!
Agradeço as elogiosas palavras e garanto-lhe que continuo e continuarei a ser o Rui Freitas de sempre: às vezes, naif", mas sempre sério e de cabeça levantada.
Também eu lamento profundamente, que uma Instituição como a SCMO seja envolvida num processo eleitoral que, por parte da Lista A, apenas tem como intenção mais uma "tomada de poder". Já não lhes chegavam os "tentáculos" partidários; agora querem estendê-los a uma das mais dignas entidades do Concelho de Oeiras, ao que consta, fazendo "à pressa irmãos" com quotas automaticamente pagas não se sabe (?) por quem.
Leite Pereira, infelizmente, os "velhos" e maus hábitos não se perderam...
Continuando a ser "Irmão" da SCMO - de facto e não arrebanhado -, dei o meu público testemunho de apoio à Dra. Eduarda Godinho, sem vacilar, até porque conheço e reconheço o muito que ela tem feito e continuará a fazer pela Santa Casa.
Quanto a si, Caro Amigo, espero que, agora, partilhe continuadamente a sua presença no "Pinhanços".


De Red-Woman a 26 de Março de 2008 às 22:28
E assim vai desaparecendo a bela história do nosso país, por jogo de interesses e de dinheiro.
Porque parece que só vêm isso á frente!!!
Eu sou suspeita...
Mas não seria de respeitar o testamento?!
O pobre homem deve andar a dar "voltas na tumba"!



De rui.freitas a 27 de Março de 2008 às 02:05
Cara Red-Woman,
Eu também entendo que um legado testamentário deve ser respeitado, apesar da ressalva que já fiz sobre a reconhecida dificuldade em atender a todo o Património que, o inexorável andar dos tempos, se vai degradando.
Confesso que já li e reli as notícias publicadas e nenhuma delas "fez luz" sobre o futuro do Palácio dos Arcos. E isso é que me preocupa realmente!


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