Domingo, 4 de Maio de 2008
Quem nos acode?

 

Na qualidade de mero cidadão, tentarei abordar hoje, de forma simples mas directa, alguns dos males que mais preocupam os portugueses, cidadãos anónimos tal como eu, para quem as grandes e profundas análises económico-financeiras apenas pretendem encontrar "razões" e desculpas para três questões que nos afligem: o desemprego (ou a sua precariedade), a perda de poder de compra e de regalias sociais e, por arrastamento, a fome que vem aumentando assustadoramente em Portugal.

Não sendo eu um desses “experts” em Economia que tudo sabem justificar, estou por isso sujeito a todas as críticas que me queiram fazer. Na certeza porém (penso eu), que estou a reagir da mesmíssima maneira que a esmagadora maioria do Povo português!

 

Trimestre sim, trimestre não, dizem-nos as “estatísticas” que ora baixa o número de desempregados, ora sobe, ora volta a baixar. E a verdade que o Povo “sente” é que, por mais números que nos atirem para os olhos, é raro o dia em que os noticiários ou as primeiras páginas dos jornais não nos dêem conta de mais uma, duas ou três fábricas e empresas a despedirem pessoal ou até a encerrarem definitivamente as suas portas.

Defendem alguns (muitos, mas nem por isso com mais razão), que tal se deve a factores como a escassa formação técnica dos trabalhadores portugueses, baixo nível de escolaridade, demasiado absentismo e/ou excessiva carga fiscal sobre as empresas.

Primeira pergunta deste post, necessariamente extenso:

Competirá apenas ao trabalhador procurar frequentar cursos de formação/actualização, sobretudo agora que - parece - a inadequação ao posto de trabalho poderá ser razão para despedimento com justa causa? Ou essa competência caberá, em primeira instância, ao empregador e ao Estado?

Admitindo alguma razão aos que apontam o baixo grau de escolaridade como “causa” para os casos de desemprego, não resisto então a perguntar: E os empregadores, alguns dos quais têm graus académicos inferiores aos seus empregados? E o Estado, que apesar de ter criado o programa “Novas Oportunidades” (criticável em certos aspectos mas louvável noutros), descura cada vez mais a Educação e prima pelo laxismo na aprendizagem?

A esse propósito, todos nos lembramos certamente dos largos milhares de jovens com elevada formação académica que, das duas uma: ou continuam a penar e a bater de porta em porta à procura de emprego, ou são obrigados a aceitar a precariedade de um emprego cuja retribuição mal dá para (sobre)viver.

Penso que, quanto à inadequação ao posto de trabalho, estamos conversados, apontando eu as mesmas causas/efeito atrás referidas.

Expliquem-me, então, porque razão os trabalhadores portugueses emigram e o seu trabalho, dedicação, pontualidade, produtividade e competência é altamente reconhecida nos países que os acolhem?

Será porque nesses países os empregadores são obrigados a cumprir regras sérias e a pagar pelo justo valor a força do trabalho? Acho que sim, até porque em empregado que se considere justamente pago estará necessariamente mais motivado para trabalhar melhor!

A propósito da descida da taxa de desemprego, recordo esta notícia publicada a 10/12/07 no “Jornal de Negócios On-line”:

Governo revê previsões em alta - Desemprego vai permanecer acima dos 7% nos próximos dois anos”.

 

Para não induzir em erro seja quem for, devo acrescentar também duas ou três coisas mais: defendo a existência das empresas e do sector privado, defendo que “o mercado tem e deve funcionar” livremente (com regras claras, naturalmente), defendo que a vertiginosa produção legislativa dos últimos três anos tem dificultado essa regra, submergindo as empresas numa autêntica teia de leis (quase sempre rectificadas com demasiada regularidade, sinal de que são “escritas sobre o joelho”) e defendo, finalmente, que deve haver “menos Estado mas melhor Estado”. O que não tem acontecido, convenhamos!

Dir-se-á: os portugueses (desempregados, empregados e empregadores) queixam-se da crise desde sempre. É parcialmente verdade... e algumas vezes sem razão.

Nesta fase, entram os tais “experts”, defendendo-se com o aumento nas vendas de carros de gama alta, apartamentos luxuosos e, entre outras razões, o acréscimo no aparecimento de condomínios privados, com porteiros, seguranças, câmaras de vigilância, etc., etc., etc. Esquecem-se de dizer que, essas mordomias, são privilégio de alguns poucos, a excepção e não a regra!

 

Não raras vezes, diz-se que - por exemplo - os construtores civis estão “podres” de ricos, mas a realidade mostra que pequenos e médios construtores andam “de corda ao pescoço”, devem à Banca e ao Fisco e muitas vezes aos próprios trabalhadores, enquanto as grandes empresas de Obras Públicas continuam a registar mais ganhos do que perdas.

Como podem constatar por estes títulos:

Lucros da Soares da Costa mais que duplicam para 7,6 milhões”;

Teixeira Duarte adquire empresa no Brasil por 23 milhões de euros”;

Sonae Capital vende Contacto à Soares da Costa por 81 milhões de euros”;

Lucros da Martifer sobem 170% para os 8,1 milhões de euros”;

Soares da Costa prevê volume de negócios de 780 milhões de euros em 2008”;

Em 2008 - Mota-Engil prevê crescimento do volume de negócios superior a 10%”;

Subsidiária da Cimpor no Perú inicia construção de nova fábrica em 2008”;

Resultado líquido da Cimpor sobe 4,2% para os 304,1 milhões de euros”.

Vejamos, entretanto, o sector bancário:

Lucro diário de 5,5 milhões de euros”;

UBS sugere potencial de valorização de 95% para o Banif”;

Empresa do Grupo Espírito Santo ganha contrato de 190 milhões em Angola”;

BES espera superar 850 milhões de lucros em 2010”;

Bancos estão a praticar “spreads” mais altos e a aumentar a restritividade”.

(O resultado do “bombardeamento” feito pelos bancos aos cidadãos, para incentivarem o consumo, dá nisto: “Crédito malparado cresce mais de 10% em Fevereiro”).

Ou os ligados (de uma ou outra forma) ao Estado/Governo

Galp dispara mais de 7% e triplica preço da OPV”;

Galp Energia lucra 377 milhões e falha estimativas dos analistas”;

(mesmo assim, falhou por defeito...).

Estado vai receber da EP uma renda de 124 milhões de euros nos primeiros anos”;

Acções podem subir 21% em 2008 -  Tabaco é o melhor refúgio em tempos de crise”;

Anacom dá 7,45 milhões de euros ao Estado”;

EPAL com lucros de 24,4 milhões de euros em 2007”;

Lucros da TAP mais que quadruplicam para os 32,8 milhões”;

(mas a transportadora aumentou a taxa de combustível para a Madeira).

EDP adquire activos eólicos em França por 51,3 milhões de euros”;

Lucro dos CTT sobe 8,7 por cento”;

Petróleo: Petrolíferas sob investigação - Aumento rende mil milhões em quatro meses”.

O próprio Governo, que criticou (bem) e (aparentemente) investigou o BCP por deter contas em “off-shores”, é agora confrontado com esta notícia:

Sócrates defende utilização de “off-shores” para rentabilizar dinheiro do Estado”. (Viva a "moral"...).

E que fez ou faz o Governo, para “emagrecer” o peso do Estado? Entre outras coisas idênticas, faz isto:

Administração Pública: Despesa cresceu 155 milhões. Serviços externos custam 958 milhões”.

(Claro que “é porreiro, pá!”).

Mas, também já nada me espanta, pois contrariando as previsões pessimistas de organismos como o Banco Mundial, o FMI e a OCDE, por exemplo, o optimismo do primeiro-ministro leva-o a afirmar isto: “Sócrates garante que "a crise orçamental está ultrapassada"”, enquanto Durão Barroso lhe segue as pisadas, dizendo isto: “Não temos qualquer razão racional para recear a recessão” e o presidente do Banco de Portugal garante isto: “Constâncio diz que Portugal vai crescer mais que a Zona Euro em 2008”.

Mesmo abordando apenas sectores como os atrás referidos, congratulemo-nos por haver “Dez empresas portuguesas na lista das maiores empresas do mundo”.

É caso para perguntarmos: será que vivemos todos no mesmo Mundo e País?

Todavia, o nosso “fado” não se fica por aqui, já que mais e más novidades pairam no horizonte próximo dos portugueses, entre as quais, esta: “Negociações para introdução de portagens nas SCUT retomadas há um mês”. Pensavam que estava esquecida e que a promessa seria para cumprir? Boas almas, é o que eu digo!

E admiram-se do resultado desta sondagem de 27 de Março? Eu, não: Sondagem Exame/Gémeo - Sócrates considerado o pior primeiro- ministro de sempre”.

(Notícias retiradas de “Jornal de Negócios On-line” e “Correio da Manhã”, com a devida vénia).

 

Só que, actualmente, a crise é cada vez mais real - as famílias no desemprego aumentam, a designada classe média-alta esfumou-se, a classe média-baixa vai pelo mesmo caminho e a “pobreza envergonhada” tende a crescer todos os dias.

Cada vez mais “regularizados” pela União Europeia, os portugueses bem podem fazer um esforço e recuar mentalmente alguns anos, quando a CEE (depois UE) pagava (leia-se, subsidiava) a compra de embarcações pesqueiras; plantação de girassol, kiwi, beterraba e vinha; aumento da produção de vinho, azeite, leite e derivados.

Que aconteceu depois? A UE voltou a pagar (leia-se, subsidiar) o abate de embarcações pesqueiras; arranque da vinha, kiwi, beterraba e girassol; redução na produção de vinho, azeite, leite e derivados, chegando mesmo a aplicar duras coimas “por excesso de produção” (lembro-me do leite açoriano, por exemplo!).

Leite, azeite, margarina e manteiga pura e simplesmente destruídos, devido a “excesso de produção”? Em que cabeça cabe tal crime contra a Humanidade? Sim, porque já havia fome no Mundo... Hoje, infelizmente, num crescendo exponencial!

Repito a pergunta: será que vivemos todos no mesmo Mundo?

 

 

Agora, porque - dizem os “experts” de sempre - escasseiam as reservas de petróleo, porque os “sheiks” ganham demasiado (embora digam que a culpa não é deles), porque as petrolíferas somam lucros astronómicos e “cartelizam” os preços (também garantem que não), os nossos (des)governantes (portugueses, europeus e mundiais) descobriram no bio combustível (em Portugal, a “Produção de bio combustíveis deverá começar antes de 2010”).

 

 

 

 

Só que, esta, parece já não ser a solução ideal, pois tem levado muitos agricultores em todo o Mundo a produzir apenas a matéria-prima para o novo combustível, abandonando outras culturas (ou cultivando apenas para a produção do novo “ouro-verde”), o que tem provocado a escassez mundial de cereais e arroz, base alimentar de muitos povos e contribuindo assim para a morte a curto prazo de milhões de seres humanos.

E quanto à nossa produção agrícola, “asfixiada” pela PAC, pela desertificação do Interior do País e pelo avanço da construção desregrada e desmesurada em anteriores campos de cultivo?

 

 

 

O que parece ser prioritário, é iniciar guerras, vender armas que custam milhões e milhões ao “inimigo” que, ontem, era “amigo” e “aliado” (o mais recente obus das forças armadas dos EUA custa “” 250.000,00 dólares cada um...), justificando, justificando sempre que a culpa é de todos nós!

 

Quadro negro e exagerado? Penso que não!

Se acham que sim, perguntem aos responsáveis dos 23 (creio) Bancos Alimentares existentes em Portugal, que já quase não sabem como responder à crescente procura de alimentos!

Resta-me perguntar: quem nos acode?



Publicado por rui.freitas às 04:55
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2 comentários:
De IM a 6 de Maio de 2008 às 15:39
Amigo Rui;

Talvez o sr sousa possa responder...
Então não é ele o 'grande chefe' do Partido Socialista que era suposto ter por finalidade uma melhor redistribuição da riqueza?

Abraço
I.


De rui.freitas a 7 de Maio de 2008 às 00:41
Isabel,
Se este "senhor" é socialista, eu sou chino-marquês!
Não sou apologista da "filosofia" de Robin Hood (roubar aos ricos para dar aos pobres...), mas que estes "xuxialistas" inverteram totalmente esse princípio, lá isso é verdade. Andam a roubar aos pobres para dar aos ricos!


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