Segunda-feira, 4 de Maio de 2009
Ainda a propósito do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Os bons e os maus

 

Já há mais jornalistas a contas com a justiça por causa do Freeport do que houve acusados por causa da queda da ponte de Entre-os-Rios. Isto diz muito sobre a escala de valores de quem nos governa.
Chegar aos 35 anos do 25 de Abril com nove jornalistas processados por notícias ou comentários com que o Chefe do Governo não concorda é um péssimo sinal. O Primeiro-ministro chegou ao absurdo de tentar processar um operador de câmara mostrando que, mais do que tudo, o objectivo deste frenesim litigante é intimidar todos os que trabalham na comunicação social independentemente das suas funções, para que não toquem na matéria proibida. Mas pode haver indícios ainda piores. Se os processos contra jornalistas avançarem mais depressa do que as investigações do Freeport, a mensagem será muito clara. O Estado dá o sinal de que a suspeita de haver membros de um governo passíveis de serem corrompidos tem menos importância do que questões de forma referentes a notícias sobre graves indícios de corrupção. Se isso acontecer é a prova de que o Estado, através do governo, foi capturado por uma filosofia ditatorial com métodos de condicionamento da opinião pública mais eficazes do que a censura no Estado Novo porque actua sob um disfarce de respeito pelas liberdades essenciais. Não havendo legislação censória está a tentar estabelecer-se uma clara distinção entre "bons" e "maus" órgãos de informação com advertências de que os "maus" serão punidos com inclemência. O Primeiro-ministro, nas declarações que transmitiu na TV do Estado, fez isso clara e repetidamente. Pródigo em elogios ad hominem a quem não o critica, crucifica quem transmite notícias que lhe são adversas. Estabeleceu, por exemplo, a diferença entre "bons jornalistas", os que ignoram o Freeport, e os "maus jornalistas" ou mesmo apenas só "os maus", os que o têm noticiado. Porque esses "maus" não são sequer jornalistas disse, quando num exercício de absurdo negou ter processado jornalistas e estar a litigar apenas contra os obreiros dos produtos informativos "travestidos" que o estavam a difamar. E foi num crescendo ameaçador que, na TV do Estado, o Chefe do Governo admoestou urbi et orbi que, por mais gritantes que sejam as dúvidas que persistem, colocar-lhe questões sobre o Freeport é "insultuoso", rematando com um ameaçador "Não é assim que me vencem". Portanto, não estamos face a um processo de apuramento de verdade. Estamos face a um combate entre noticiadores e noticiado, com o noticiado arvorando as armas e o poder que julga ter, a vaticinar uma derrota humilhante e sofrida aos noticiadores. Há um elemento que equivale a uma admissão de culpa do Primeiro-Ministro nas tentativas manipulatórias e de condicionamento brutal da opinião pública: a saída extemporânea de Fernanda Câncio de um painel fixo de debate na TVI sobre a actualidade nacional onde o Freeport tem sido discutido com saudável desassombro, apregoa a intolerância ao contraditório.
Assim, com uma intensa e pouco frequente combinação de arrogância, inabilidade e impreparação, com uma chuva de processos, o Primeiro Ministro do décimo sétimo governo constitucional fica indelevelmente colado à imagem da censura em Portugal, 35 anos depois de ela ter sido abolida no 25 de Abril.

 

Com a devida vénia a: Mário Crespo



Publicado por rui.freitas às 02:22
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3 comentários:
De nehalem a 4 de Maio de 2009 às 03:32
Chamo a atenção para a votação que irá decorrer no Parlamento Europeu, no próximo dia 5 de Maio:
http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+AGENDA+20090505+SIT+DOC+XML+V0//PT&language=PT

Pelos títulos das propostas, parece estar tudo bem, e parece que os direitos dos consumidores (nós) até estão a ser defendidos.

No entanto, sempre que vejo regulação, regulamentação e internet, na mesma frase, fico desconfiada. Ainda por cima, os senhores estão com pressa em aprovar isto antes das eleições. Ora, reguladores, regulamentos, Internet e pressa deixam-me ainda mais apreensiva, pois caso estas novas propostas sejam aprovadas, a Internet, como a conhecemos, pode estar a acabar.
Sim, isto pode ser o princípio do fim.
Se estas propostas forem aprovadas, os ISP (Internet Service Providers - Fornecedores do Serviço de Internet) passarão a estar legalmente habilitados a limitar o número de sites a que podemos aceder, e a dizer-nos se estamos ou não autorizados a utilizar determinados serviços.
Eles decidem por nós, disfarçadamente de "Opções dos consumidores", parecendo, portanto, uma benesse, mas na realidade, isto permitirá aos fornecedores de acesso a venderem pacotes de internet como vendem os pacotes de televisão, com um número limitado de opções às quais poderemos aceder.

Eles escolhem os conteúdos e os serviços a que podemos aceder. Deixaremos assim, de ter uma Internet Livre, será a Internet pré-escolhida por terceiros. Com a "liberdade" que esses todos poderosos decidirem dar-nos.

Não conto muito com pressões portuguesas, mas tenho esperança que os cidadãos de outros países pressionem o NÃO: http://www.blackouteurope.eu/

Enfim, eis a nova (des)Ordem Mundial!


De rui.freitas a 6 de Maio de 2009 às 02:09
Cara "nehalem", já tinha conhecimento do assunto e estou a recolher mais informação para escrever um "post" sobre o mesmo.
Felizmente, há cada vez mais pessoas atentas, como é o seu caso, e ainda bem...
Registo e partilho totalmente da sua opinião e das suas fundadas suspeitas e receios. É que eu não tenho dúvidas: vamos mesmo ver restringidos mais direitos e liberdade de opinião e expressão.
Tudo para "nos protegerem", claro! De quê ou de quem? Desses mesmos que nos dizem querer "proteger"!
Eu sei que ninguém dá nada a ninguém, mas também sei que nos "oferecem" serviços e benesses e, depois de convencidos a usufruirmos deles, tiram-nos "a cenoura" atrás da qual nos fizeram correr.
O "Big Brother" tem cada vez mais tentáculos e alguns (muitos) ainda não perceberam.
Denunciar, é preciso!
Obrigado.


De nehalem a 11 de Maio de 2009 às 02:09
Caro Rui Freitas, agradecendo a sua resposta, por falta de tempo só agora consegui aqui voltar e deixar o resultado do "primeiro round", via um blog interessante e incansável na denúncia de situações como esta: http://movv.org/2009/05/06/o-parlamento-europeu-recusa-o-pacote-das-telecomunicacoes-por-enquanto-estejamos-atentos-a-2%C2%AA-volta/

Boa semana! ;)


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