Quarta-feira, 28 de Maio de 2008
Nascemos, consumimos, adoecemos e morremos

A cada dia que passa, dou comigo a pensar porque é que, quando eu era jovem, a fruta tinha cheiro, tinha sabor e não apodrecia dois dias depois de comprada; a manteiga sabia a manteiga e não rançava uma semana depois de adquirida (mesmo se conservada no frigorífico); o queijo sabia a queijo e não criava bolor ou se estragava rapidamente dentro do frigorífico; o fiambre não "esverdeava" fora do frigorífico, como acontece hoje; o leite era saboroso e nutritivo, não a "mistela" impingida nas grandes superfícies comerciais; os meus gatos e cães comiam os restos das refeições e não morriam por isso; o lixo que produzíamos lá em casa era depois transformado em adubo para a pequena horta caseira; a água das levadas irrigava as terras da horta e o que ela produzia tinha todos os nutrientes de que eu e milhões de jovens precisavam; as uvas, pitangas, abacates, bananas, figos, ameixas e demais frutos eram "abençoados" apenas pelo sol e a chuva, jamais por pesticidas, herbicidas e quejandos... e não morri... não morremos?

A cada dia que passa, dou comigo a pensar porque é que, quando eu era jovem, a panela da sopa era feita de alumínio; o café era passado pelo coador de pano vezes sem conta; a alface e a couve eram lavadas em água sem "aditivos"; a própria água era bebida directamente da torneira, dos regatos... e não morri... não morremos?

A cada dia que passa, dou comigo a pensar porque é que, quando eu era jovem, os soldadinhos de chumbo continham chumbo, eram pintados com tinta de chumbo e outros materiais "mortais"; o relógio da sala, quando avariava, era mandado reparar; o rádio, quando deixava de funcionar, era consertado pelo técnico e voltava a deixar-se ouvir; o fogão a lenha apenas precisava de uma limpeza diária; a panela de ferro "produzia" comida saborosa como já não existe; a fruta era apanhada e comida (sem lavar) empoleirado em cima da árvore que a produzia; o mercado municipal cheirava a fruta e a flores acabadas de colher, a carne e o peixe acabados de matar ou pescar; as calças rasgadas eram remendadas primorosamente; as meias de senhora (quando "puxavam fios") e as peúgas de homem também; os avós não eram "cotas", eram protectores e viviam até quase aos cem anos; os livros de estudo serviam para a minha irmã e para mim; o Liceu cheirava a giz, a borracha fresca, a cera imaculadamente espalhada pelas salas e corredores; o Contínuo (hoje, auxiliar de acção educativa), impunha respeito; o Professor era o Mestre incontestado que derramava sobre nós o seu Saber; os idosos e as autoridades eram respeitados com a maior naturalidade?

A cada dia que passa, dou comigo a pensar porque é que, agora, a "normalização" europeia e mundial rejeita os legumes menos viçosos, "calibra" as frutas; rotula o peixe e a carne; impõe prazos de validade a produtos como o benéfico mel (quando todos sabemos que é dos que NUNCA se estraga); que me impede de passar a manteiga no pão com uma faca de madeira ou mexer a panela com uma colher de pau?

Alguém sabe porque é que o Queijo Serra é, obrigatoriamente, manuseado por mãos frias, femininas e proibitivamente tocado por mulheres em ciclo menstrual? Porque sim!

Porque as obrigam, então, a controlar a temperatura frigorífica do mesmo, sob pena de coima e apreensão desse delicioso e único manjar bem português?

Hoje, somos todos fiscalizados, "normalizados", liofilizados, empacotados, consoante as "directivas" que sábios senhores nos dizem ser obrigatórias! Nem sequer podemos pescar o "jaquinzinho"... Mas podemos comprá-lo aos espanhóis, que o pescam em águas portuguesas!

Que saudade e pena tenho eu de já não poder rasgar as calças, esfolar-me ao cair da bicicleta sem ter de ir visitar o Hospital... Antes, a água de um qualquer poço, sarava as feridas!

Dizem-nos: somos o que comemos! E eu digo: mas eu até comi terra quando era criança!?

A relva, cheirava a Primavera; a floresta tinha o odor do Outono!

Brinquei com carrinhos da Dinky Toys pintados com tinta de chumbo!

Cavalguei cavalinhos de cartão prensado!

Escorreguei em "tobogans" de madeira untados com banha!

Conduzi "carrinhos de cana e arame" ferrugento!

Na estação de rádio onde trabalhei, encostávamos uma lâmpada fluorescente ao cabo de aço que sustentava uma das antenas... e ela acendia com a radiação!

E não morri... não morremos!

Quando comprei o meu primeiro carro por 32 contos - um Fiat 850 Coupé (o chamado "Porsche dos pobres"), um litro de gasolina custava menos do que o "desconto" que "gentilmente me oferece" agora a gasolineira onde abasteço pelo mesmíssimo litro!

"Felizmente"... "evoluímos"!

A colher de pau, foi banida; o Contínuo e o Agente da Autoridade desrespeitados; o Professor agredido; os pais desobedecidos; a fruta vendável é "calibrada" (mas apodrece depressa e não sabe a nada); o queijo, o fiambre, a manteiga, o leite, o azeite, o óleo... aditivados (mas também não sabem a nada, fazem mal à saúde e estragam-se num ápice)...

Viva a "evolução" imposta pelos senhores do Mundo!

Não?

Confirme, por favor... (um pouquinho longo, mas vale a pena)

 

 

Vamos por um rico caminho, sim senhores! Isto sim, é "colidade de vida"!

(Agradecimento ao AM, pelo link a este vídeo).



Publicado por rui.freitas às 01:06
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1 comentário:
De Red-Woman a 6 de Junho de 2008 às 17:05
Posso não ir tão atrás no tempo, mas recordo-me dos iogurtes da Longa Vida, quando ainda eram Iogurtes decentes, do pão na porta de casa, de ser Maio e já ter calor.
Da inexistência de Centros Comerciais...
Uufffff...

Saudades dos meus tempos de menina e moça a correr por Oeiras.


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