Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007
OTA - O maior embuste vendido aos portugueses

Com a devida vénia, "roubei" ao "Expresso" de 3 de Fevereiro, a seguinte opinião:

À medida que os estudos sobre a Ota vão sendo feitos e que mais e mais vou lendo sobre o assunto, as minhas dúvidas vão-se progressivamente dissipando. Receio que estejamos na iminência do maior embuste jamais vendido aos portugueses

O Governo agradece que o país ande tão entretido a discutir o aborto e que tudo o resto lhe passe, entretanto, ao lado. Neste resto, inclui-se o aeroporto da Ota, que lá vai fazendo o seu caminho através dos estudos preparatórios e da promoção junto da opinião pública, confiada a uma conhecida agência especializada em campanhas políticas e defesa da imagem de empresas públicas ou semipúblicas mal geridas. No final, a ideia é apresentar-nos a Ota como necessidade vital e facto consumado.

É preciso, pois, que os portugueses percebam, enquanto ainda é tempo, o que nos estão a preparar. A Ota é um projecto ruinoso, errado e prejudicial, sobretudo para Lisboa e para os utentes do seu aeroporto. Nem Lisboa nem Portugal precisam de um novo e gigantesco aeroporto. Precisam, quanto muito, apenas de um aeroporto alternativo, pequeno e barato, para as «low cost» - de forma a desanuviar a Portela e deixá-la simplesmente para as companhias regulares, assim assegurando, por exemplo, a sobrevivência da TAP face à concorrência imbatível das «low cost». É isto que se está a fazer em Espanha, em França, na Alemanha, na Inglaterra, países onde os grandes aeroportos 'regulares' têm um movimento muito para além daquilo que a supostamente 'saturada' Portela jamais teve ou terá.

A construção da Ota juntamente com o TGV vai liquidar as ligações aéreas Porto-Lisboa e Lisboa-Madrid, que representam actualmente 12% do movimento da Portela. Vai retirar de Lisboa turistas e viajantes de negócios. Vai pôr a capital uma hora mais longe da Europa e do mundo. Vai dificultar a vida a todos os passageiros de Lisboa e do Porto. E vai, fatalmente, custar uma fortuna incalculável ao país - que o Governo disfarçará, através da privatização da ANA e das receitas do novo aeroporto e do de Faro (os únicos rentáveis), de que o Estado vai abdicar a favor dos privados durante gerações, para assim se poder enganar os tolos dizendo que praticamente não há custos públicos envolvidos.

Na semana passada, tropecei num artigo do 'Jornal de Negócios' daqueles que fazem logo desconfiar à légua. Baseando-se num dos estudos em curso sob a alçada da NAER (a empresa da Ota), nele se analisavam os impactos previstos para o turismo e decorrentes da construção do novo aeroporto, concluindo-se que a Ota "deverá gerar cerca de 1100 milhões de euros para o turismo nacional, que terá um acréscimo de 7,35 milhões de dormidas com a nova infra-estrutura". Dito assim, deve ter impressionado os incautos; analisado de perto, percebia-se que se tratava de uma aldrabice pegada - não sei se do estudo, se do jornal, se da agência de comunicação ou se de todos juntos. Vale a pena olhar, para se entender a forma como nos estão a impingir a Ota .

Basicamente, o estudo prevê que as entradas de turistas continuarão a crescer indefinidamente ao ritmo de 1,5% ao ano, o que fará com que em 2020 se atinja os 23,5 milhões. Então, fizeram-se as seguintes contas: se em 2017, quando a Ota entrar em funcionamento, a Portela (que, entretanto, continua sempre em expansão) estará já a responder por 16 milhões de passageiros, os 7,35 milhões que faltam até chegar aos tais 23,5 milhões em 2020 serão atingidos graças à Ota. Os pressupostos em que assenta este raciocínio são hilariantes: primeiro, que todos os turistas que entram em Portugal o fazem por via aérea (na realidade, são apenas 42%) e, segundo, que todos eles, rigorosamente todos, chegarão através do aeroporto da Ota. Mas há mais e igualmente anedótico, se não fosse grave. A certa altura, o estudo tem de reconhecer que, segundo os inquéritos que terão sido feitos, também há turistas que deixarão de vir a Lisboa, com um aeroporto situado a 55 km da cidade: "apenas 14%", escreve o jornal . Apenas? Saberão eles que o grande crescimento do turismo se tem situado justamente em Lisboa? Pouco importa: informam-nos que isso será compensado com "o aumento do fluxo de turistas na Região Oeste e na Comporta (?), por exemplo". Sejamos então suficientemente crédulos para acreditar que os quase 900.000 turistas/ano que o próprio estudo reconhece que deixarão de vir a Portugal e a Lisboa, devido à localização da Ota, serão amplamente compensados por outros que só cá virão para desembarcar na Ota e ficar logo por ali, ou então para ir à Comporta, que fica 55 km mais longe! Estarão a brincar connosco?
(...)
E assim vai a Ota. Quando comecei a seguir de perto a questão, a minha grande dúvida era saber se Lisboa e o país precisavam realmente de um novo aeroporto ou se estávamos perante um gigantesco negócio de favor, em benefício de poucos e com prejuízo de todos . À medida que os estudos vão sendo feitos e que mais e mais vou lendo sobre o assunto, as minhas dúvidas vão-se progressivamente dissipando. Receio que estejamos na iminência do maior embuste jamais vendido aos portugueses. Oxalá eu esteja enganado!

Comentário:
Porquê, Sócrates?


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Publicado por rui.freitas às 02:23
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8 comentários:
De Consciencia Critica a 6 de Fevereiro de 2007 às 22:40
Caro Rui Freitas, este post tem tão de pertinente como de verídico. É quererem que o Zé Povinho, acredite em todas as balelas que eles nos querem impingir. Já deviam ter percebido, que em Portugal, ainda há quem pense. Também já escrevi sobre isto, com os mesmos princípios e argumentos, e com exemplos concretos Franceses. Enfim!!!
(http://ccritica.blogspot.com/2007/01/portugal-um-pas-rico.html)


De rui.freitas a 6 de Fevereiro de 2007 às 23:04
Caro Amigo,
Felizmente, ainda somos seres pensantes e, um comentário da sua parte, conhecedor que é do assunto em causa, é para mim lisonjeiro, pois como já leu, eu também NÃO DEFENDO A SOLUÇÃO OTA!
Agora, o Sr. PM também quer "transferir" os voos "low cost" para Beja. Inocentemente, pergunto: Sei (porque pesquisei) que posso ir a Barcelona e voltar por 20 Euros... E quanto me custará ir a Beja e voltar, no pressuposto que, se for de férias, não vou deixar o carrinho 15 dias ao "deus-dará"? 50 Euros? 70? 80? Então, para que quero o "low cost"?
Antes prefiro o "low profile" e ... siga a banda!


De Direct Current a 7 de Fevereiro de 2007 às 17:38
Os grandes aeroportos na Alemanha, UK, França ficam a 30 km de distância da cidade ao qual é servida. É norma o povinho no estrangeiro utilizar os transportes públicos disponíveis na cidade mais próxima para acederem ao Aeroporto.

A Ota vai acabar por facilitar a vida à malta de Coimbra, Leiria, Santarém, Mafra e Centro do País, que não Lisboa e Sul do Tejo, em acederem com menos tempo ao Aeroporto Internacional. Os industriais de Leiria já esfregam as mãos de contentes, por verem ir para a frente projectos de desenvolvimento na região.

Numa obra pública, há sempre custos públicos portanto a afirmação do opiniante é enganadora (quem pensa assim é otário ou está a ser desonesto).

É de rir vir a saber que este jornalista se baseia nas declarações ou artigos de outros jornalistas, alimentando a propagação de análises feitas ad-hoc e justificando-se porque sim e porque o outro escreveu aquilo e portanto é uma verdade indiscutível.

Quanto à diminuição de turistas, o impacto não será assim tão grande. Eles não são tão comodistas e armados em coitadinhos como nós. Vêm para cá conhecer Portugal, fazer negócios e não se importam de apanhar um transporte público até ao centro da cidade. Nós por cá, importamo-nos e muito.

Mas o Rui também já sabe qual é a minha posição sobre a Ota (sou a favor).

Abraço,
DC


De rui.freitas a 8 de Fevereiro de 2007 às 01:40
Amigo "DC",
Claro que sei qual a sua posição em relação ao "dossier" OTA... Mas também conhece a minha!
Sei, há muitos anos, que qualquer mudança causa sempre "fricção" mas, não me considerando nem "ótário" nem "desonesto"... e não tendo absolutamente nada contra os empresários do meu País (Norte, Centro, Sul ou Ilhas), sempre lhe digo que espero não ter de "obrigá-lo" a dar-me razão, pois se isso acontecer é sinal de que "o mal já está consumado".
Quanto aos tais transportes (fáceis, acessíveis, rápidos e de qualidade), presumo também estar de acordo com o TGV... No presuposto normal de que este "parará" próximo do dito futuro aeroporto!
É que não existem outros com tais requisitos!
Já agora, que me diz dos voos "low cost" passarem a usar a base de Beja?
E quanto aos 20 euros Lisboa/BarcelonaLisboa e 60, 70 ou mais para fazer Lisboa/Beja/Lisboa?


De Direct Current a 8 de Fevereiro de 2007 às 21:51
Rui,

Eu não te chamei otário ou desonesto, mas ao jornalista que fez esta notícia. Como um bom jornalista que deve ser, devia consultar a fonte e não se amparar em trabalhos de investigação de outros jornais se quisesse fazer um artigo de primeira. O presente artigo - e li-o no Expresso de fio a pavio, é um artigo de opinião e deve ser considerado como tal, e não um artigo jornalístico, este isento e com credibilidade.

Se dás razão ao tipo, então estás enganado - ou eu estou, o tempo o dirá. Fazemos uma aposta?

Se o TGV avançar a nível ibérico, porque não estender a rede ferroviária deste tipo de Espanha para Portugal? Deveremos fechar-nos, orgulhosamente sós e virando costas à Europa? O financiamento é assegurado em grande parte pelo QREN , como devia de ser e estava previsto ser pelo Governo PSD anterior.

As low cost vão continuar a usar Lisboa e mais tarde a Ota. Beja irá aumentar, de uma forma extremamente barata, a acessibilidade internacional ao Alentejo, potenciando os núcleos industriais de Sines e a actividade empresarial turística na zona do Alqueva. Deve ser considerado como um aeroporto regional e como tal aproveitado.

Essa é a minha opinião.

Um abraço e desculpa lá se te ofendi porque não era minha intenção.


De rui.freitas a 10 de Fevereiro de 2007 às 02:02
Amigo "Direct Current",
Em primeiro lugar (e como já antes disse), não me ofendeste nem me ofendo "por dá cá aquela palha". Era mais uma "ferroadazita", palavra!
Confesso que li o artigo tal qual me foi enviado e não fui confirmar (erro meu) ao "Expresso" dessa data.
Quanto à OTA, mantemos os dois a mesma posição de sempre: um contra outro a favor. Ou seja: estando empatados, só o tempo dirá quem sai vencedor. Com pena minha, pois se sair eu vencedor, é o meu País que sai a perder!
Quanto ao TGV, naturalmente que sei que foi o Governo PSD que também o pretendeu, cometendo até alguns erros pelo caminho. E que eu ainda pretendo... Nunca disse que não. Só "não o quero" a qualquer preço e, sobretudo, a preços que já fazem muita gente de responsabilidade pensar seriamente!
Eu quero que o TGV se ligue ao AVE e por aí fora, mas não agora (esmifrando cada vez mais o já depauperado bolso do português), mas sim com regras claras, estudos encomendados e não "encomendados", etc., etc., etc.
Certo, Caro Amigo?


De IM a 7 de Fevereiro de 2007 às 18:24
LOW COST EM BEJA? Não sabia! Mas então não era em Figo Maduro ou numa localidade a sul do Tejo, mas mais próxima de Lisboa?

Ocorreu-me que o PM queira mudar a capital para outro lado...!

[] laranja.


De rui.freitas a 8 de Fevereiro de 2007 às 01:55
Pois, pois... Conhece algum governante PS que tenha cumprido o que disse? Eu, não conheço!
Caso queira confirmar, visite este link: http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=229865&idCanal=11

E... boa viagem até Beja!


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